Joana Santiago, Presidente da APA: “Só com uma D.O. Monção e Melgaço iremos garantir que o valor que a nossa região gerou não se perca no tempo”

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A produtora da Quinta de Santiago, Joana Santiago, é a nova presidente da Direção da APA – Associação de Produtores de Monção e Melgaço e marca a história da associação ao ser a primeira mulher eleita e a assumir a presidência, juntamente com Sara Covas (Cortinha Velha) e Paulo Cerdeira Rodrigues (Quinta do Regueiro).

Mulher de causas e carisma, no sector desde 2010 e com marca própria desde 2014, partilha uma visão comum aos dois ex-presidentes, Anselmo Mendes e Miguel Queimado, que se associam a esta nova direção encabeçando a Presidência do Conselho Fiscal e Presidência da Assembleia Geral, respetivamente.

A nova equipa diretiva, empossada no final de Janeiro, tem como objetivo comum, entre outros, “promover a criação de uma DO Monção e Melgaço, dentro da grande Região Demarcada dos Vinhos Verdes, tal como acontece em regiões de referência mundial, como Bordéus e Borgonha”.

Pelos dados da APA, em 2023 e até ao final do mês de Outubro, a sub-região de Monção e Melgaço produziu quase 6,5 milhões de litros de vinho (certificado como Monção & Melgaço), representando mais de 70% do vinho certificado na Região dos Vinhos Verdes com Indicação de Sub-Região.

Como afirmação do seu território, autenticidade, origem e qualidade dos seus vinhos, a sub-região tem um selo de certificação exclusivo – Monção e Melgaço – desde o ano de  2017. Este selo afirma um segmento de maior valorização na Região Demarcada dos Vinhos Verdes e assegura um posicionamento Premium nos mercados externos.

Colocamos algumas questões a Joana Santiago sobre os desafios e homenagens ao território que tornou Monção e Melgaço a coqueluche da Região dos Vinhos Verdes

A Voz de Melgaço (AVM) – Quais são os principais projectos ou causas que quer implementar para a dinâmica da Sub-Região durante este mandato?

Joana Santiago (JS) – Durante este mandato de três anos, esta direção pretende manter a execução do Plano de Promoção da marca Monção e Melgaço que resultou da negociação realizada em 2015 e iniciar a criação e implementação de um plano de promoção de MM da APA. Tal como é público, a DO é um objetivo de futuro e estamos a promover o debate interno sobre os possíveis moldes de funcionamento. A ascensão de uma sub-região para uma DO, dentro de um organismo de certificação, é inédito. E isso demora o seu tempo a organizar, é um caminho. Pretendemos igualmente criar um conjunto de formações, descontos e vantagens para os associados. Promover jornadas técnicas na Sub-Região e estreitar a ligação com os nossos associados, promovendo e defendendo os seus interesses.

AVM – É a primeira mulher a assumir a presidência de um organismo que promove um sector conotado com o mundo masculino. Pode parecer um pouco perverso fazer referência, porque estamos a perpetuar o estigma, mas por outro lado é de assinalar que, a par de Dora Simões (Pres. CVRVV), indicam um franco sinal de que a gestão e promoção do sector estão a abandonar os modelos mais conservadores e a voltar-se para a modernidade que as mulheres têm trazido ao mundo dos vinhos, quer nas próprias marcas, quer nas associações. Será assim?

JS – Eu diria que vem normalizar que o reconhecimento do valor académico, do trabalho, profissionalismo e confiança acontece, sejam homens ou mulheres, porque estão criadas condições para a igualdade de oportunidades no setor. Acredito que a modernidade que trouxe e trarei ao setor dos vinhos, seja na marca própria ou na APA, estarão associadas a valências intrínsecas e não de género.   

AVM – Tem sido mote de alguns discursos a questão da DO para a Sub-Região. Libertado que está o Alvarinho de exclusividades dentro da região, quais serão as preocupações do novo selo de garantia? Isto porque, quanto à valorização de produto com origem na Sub-Região, o selo negociado em 2015 – Monção & Melgaço – já vem diferenciar o terroir, ou há mais a ganhar com esta certificação especial?

JS – O selo Monção & Melgaço marcou o início do caminho para o processo de certificação e tem um papel importantíssimo na distinção e reconhecimento dos vinhos do nosso território. Na verdade, uma DO é a maior distinção que uma região ou território pode receber na identificação dos seus vinhos. É a marca que materializa a triangulação do saber humano, com as características de um território (solo, clima e geografia), e o vinho produzido nesse mesmo território. Só com uma DO Monção e Melgaço é que iremos garantir que o valor que a nossa região gerou ao longo de várias décadas, não se perca no tempo. Nunca nos podemos esquecer que as uvas de Monção e Melgaço, estão entre as mais caras de Portugal. Este valor diminui assimetrias, e mantém as pessoas no território.

Monção e Melgaço produz hoje 7 castas diferentes, 3 brancas (Alvarinho, Trajadura e Loureiro) e 4 tintas (Alvarelhão, Borraçal, Pedral e Vinhão). Sendo hoje a aposta central na casta Alvarinho, no passado, o reconhecimento de Monção e Melgaço foi com as castas tintas de cor aberta. Se procurarmos em qualquer manual sobre a história do Vinho Verde, é sempre referido que já no século XVII eram exportados vinhos tintos de Monção para Inglaterra, por uma feitoria de ingleses instalada em Viana do Castelo. Este facto só vem dar consistência à nossa pretensão na criação da DO Monção-Melgaço, pois não só a nossa sub-região tem uma história mais antiga que a própria região demarcada criada em 1908, bem como esta alteração de alternância de aposta nas suas diferentes castas, nos mostra a capacidade que os protutores de Monção e Melgaço têm tido ao longos dos anos em responder aos desafios, mantendo a região viva e forte.

AVM – Num dos últimos discursos em evento público, o edil de Melgaço dizia que era tempo de ir entregando nas mãos dos produtores de vinho da Sub-Região, quer parte da fatura inerente às despesas de realização de eventos (como a Festa do Alvarinho ou Alvarinho Wine Fest), quer parte da gestão do modelo de evento a realizar. Pela sua experiência no terreno em eventos dentro e fora de portas, os agentes do sector estão prontos para assumir este papel, ou as autarquias ainda terão de ser o parceiro determinante nestas estratégias?

JS – Os eventos Festa do Alvarinho e Wine Fest foram e são eventos desde sempre organizados pelas Câmaras Municipais e assim devem continuar enquanto parceiros determinantes. São eventos com uma organização irrepreensível, que promovem o território de forma exemplar, estimulam a economia local, atraem milhares de turistas, geram valor. Os produtores participantes apesar de não fazerem parte da gestão do modelo de evento, são anualmente consultados pelas Câmaras Municipais sobre as suas necessidades, pretensões e expetativas de forma criar eventos cada vez mais auspicioso. Não obstante, a APA enquanto associação sem fins lucrativos, deve apoiar da forma possível atendendo ao seu escopo.

AVM – Nos últimos anos tem havido algumas tentativas de operacionalizar a Rota do Alvarinho, mas tem faltado alguma estratégia ou modelo que a torne viável em permanência. A APA pode ter aqui alguma participação determinante, com acordo de ambos os municípios, que a façam funcionar de forma sustentável?

JS – O escopo da APA é a promoção e defesa dos interesses dos seus associados e desta forma poderá sempre ter um papel ativo em representação dos associados  na tentativa de operacionalizar a Rota do Alvarinho enquanto ferramenta de promoção do território importantíssima.

SOBRE A APA

AVM – Enquanto associação, tem associados produtores de vinho, com pagamento de quotas anuais, como no geral das associações?

JS – Nos dias de hoje a APA é maioritariamente composta por associados produtores de vinhos. Existem pagamentos de quotas.

AVM – Quem são atualmente os associados com prerrogativa de voto, produtores de uva ou produtores de vinho?

JS – Nos termos dos estatutos, todos os associados, com exceção dos honorários, tem direito de voto.

AVM – A exclusividade do vinho Alvarinho para a sub-região de Monção (Melgaço surgiria depois, na designação) com a DOC Alvarinho, foi um privilégio que durou 50 anos (assinalados em 2023). Não se ter assinalado a data foi um acto de pensar mais global, ou simplesmente por não ter havido qualquer indicação?

JS – O dia de Monção e Melgaço tem vindo a ser celebrado todos os dias 7 de junho desde 2019, data em que o selo de origem Monção e Melgaço fez um ano que foi implementado por diploma no âmbito do conjunto de contrapartidas do documento assinado em janeiro de 2015. Será o nosso território que devemos celebrar e assinalar, afinal de contas é ele a origem do alvarinho e é aqui que a casta atinge a sua plenitude!

AVM – Justificar-se-ia ainda a homenagem a este passado e às pessoas envolvidas (algumas ainda vivas) neste projeto que acabaria por valorizar a casta e o terroir?

JS – A nossa pretensão na criação da DO Monção Melgaço, vem ao encontro dessa homenagem e valorização da casta e do terroir, materializando o saber humano com as características de um território e o vinho aqui produzido. A DO garantirá que a história e o valor imaterial que a Sub-região criou ao longo de décadas, mesmo antes da região demarcada, não se perde no tempo e por essa razão deve ser uma pretensão apoiada pela comunidade em geral, pelo poder político, pelos operadores locais homenageando todos os que foram trilhando este caminho. Se queremos continuar esta afirmação de identidade, da nossa diferença, é necessário que Monção e Melgaço crie a sua própria categoria, com os nossos valores, diferentes da marca Vinho Verde em geral, nomeadamente o facto de liderar, há décadas, o segmento premium da Região Demarcada. O consumidor que compra Monção e Melgaço, reconhece esse valor e este segmento e por isso está disponível para pagar por isso. Queremos chegar mais longe, onde todos os consumidores alcançam e reconhecem esse reconhecimento, percebem o segmento premium associado a um território e a um Terroir diferenciado dentro da região e logo estão dispostos a pagar mais.    

AVM – Aquando das negociações de 2015, o acordo com a CVRVV contemplou uma verba de promoção da sub-região na ordem dos 3 milhões de euros. Esse dinheiro foi efetivamente gasto em ações promocionais? Ainda há verba disponível para futuras ações?

Essa verba foi efetivamente gasto em ações promocionais no mercado nacional e internacional e ainda há verba disponível para futuras ações, até 2025. A mais valia para a Sub-região é tal como já referido, a promoção da marca território e a criação da identidade premium na região Demarcada, sendo que o consumidor que compra Monção e Melgaço, reconhece esse valor e este segmento associado a um território e a um terroir diferenciado e por isso está disponível para pagar por isso. Posto isto, garantimos a manutenção  das uvas de Monção e Melgaço, entre as mais caras de Portugal, diminuindo assimetrias, e mantendo as pessoas no território.

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