Projecto NUTRIR: Desde 2021 a construir uma estratégia para mexer com a produção no Alto Minho

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Fumeiro IGP, produção animal, sector vitícola e microalgas na charneira de preparação para o futuro da região


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Apesar da cerimónia pública de apresentação, em 2021, o projecto NUTRIR, do Núcleo Tecnológico para a Sustentabilidade Agroalimentar, tem feito trabalho de bastidores para preparar o futuro no qual é preciso fundamentar cientificamente a melhor forma de sustentabilizar a região.

Sediado na Escola Superior de Desporto e Lazer de Melgaço, com orientação científica do CISAS – Centro de Investigação e Desenvolvimento em Sistemas Agroalimentares e Sustentabilidade do IPVC.

Nuno Vieira e Brito, Coordenador do programa, diz que, em pouco mais de um ano, já foi possível criar emprego científico, tendo alocado ao projecto um total de seis bolseiros – três bolseiras doutoradas e três novos bolseiros, dois no terreno e um em trabalho laboratorial em Ponte de Lima – que permitem trazer massa crítica jovem para a região e que trabalhem nestas diferentes áreas.

Marta Vilas Boas, no sector da viticultura e enologia, e João Marinhas, também na viticultura, com o projecto de protecção das castas minoritárias; Sónia Batista, engenheira zootécnica, com a pasta dos recursos animais e produção agro-alimentar; Ângela Ribeiro, bióloga, com o apoio de Alexandre Sá, também bolseiro a acompanhar o projecto etnobotânico, que se desenvolve em zonas como Castro Laboreiro e na Serra d’Arga, são os investigadores no terreno a propósito do projecto que quer colocar o rigor científico ao dispor do saber empírico de quem produz na região.

O projecto inicialmente pensado para trabalhar em Melgaço, e Paredes de Coura, abrange hoje a quase totalidade dos concelhos alto-minhotos, de Melgaço a Caminha, passando pelo concelho de Arcos de Valdevez.

A investigação na área da vinha é uma das forças do NUTRIR e sobre o qual há mais expectativas, face à importância do sector na sub-região, que terá de preparar-se para as doenças da vinha, as alterações climáticas e a utilização da água, a médio prazo.

“Estamos a fazer um estudo que nos permita a capacidade de fazermos previsões que sirvam como alerta aos produtores para a presença de doença ou potencial risco de doença, previsão de geada e alerta no sentido de se salvaguardarem em termos de tratamentos. Queremos criar uma rede com o máximo de informação possível, que depois será trabalhada informaticamente e que permitirá darmos esses avisos aos agricultores. Não é um processo imediato, requer tempo, estamos na fase de identificação das redes meteorológicas disponíveis onde possamos ir buscar informação, começamos por aí”, explica Marta Vilas Boas.

As doenças do lenho, como a Esca da vinha, que reduz significativamente o período de produção da videira, são um desafio até para os investigadores, porque as plantas poderão estar infectadas sem que os sintomas estejam visíveis. “Demoram a aparecer, e como as ferramentas não são limpas, corremos o risco de propagação da doença”, nota ainda.

“A partir do momento que identificamos a doença numa parcela e se consegue identificar as videiras, podemos marcá-las e podar em último ou então destrui-las. Mas é preciso ter olho bem treinado para ver se há doença ou não”.

Eliminar as plantas infectadas resolverá o foco de infecção, o que torna a Esca da vinha uma doença controlável sem prejuízo significativo, mas muito menos radical que a flavescência dourada, que poderá implicar o corte de toda a parcela. Mas nem só para o combate às agressões tradicionais da vinha se preparam os investigadores. Há ainda que preparar as plantas para a natureza.

“Queremos perceber como a videira se pode adaptar às alterações climáticas que estão a acontecer. Os estudos que estamos a fazer vão dando indicações se há necessidade de fazer alteração do porta-enxerto a utilizar, mais adequado para as situações extremas. É uma questão que não se tem falado muito, porque quando [os viticultores] fazem uma plantação de videiras, vão pelas linhas base, não fazem uma análise prévia aos seus solos, não identificam quais os porta-enxertos mais adequados à parcela e vão pelos mais comuns, como os 1103 P, o 196-17 ou um SO4, porque é aquilo que mais se produz em viveiro e é mais comum”, observa Marta Vilas Boas, indicando que a estratégia mais “interessante” a adoptar no futuro será, “antes de fazer uma plantação, fazer uma boa análise ao solo, identificar as características da estrutura de solo e a partir daí definir o porta-enxerto a aplicar, independentemente da casta, porque é o porta-enxerto que vai segurar a parte radicular e vai auxiliar a casta que queremos inserir”.

Produção biológica: “Até à data, as regras eram simpaticamente esquecidas”

No dossier da agricultura biológica, “existem regras comunitárias que Portugal tem de cumprir”, atira o coordenador do NUTRIR, sob pena de se perder uma série de apoios específicos.

“Até à data, essas regras, para o dizer de uma forma simpática, eram simpaticamente esquecidas. A regra era 60/40 (40 por cento do alimento tem de ser produzido pelo agricultor e os outros 60 podem ser produzidos fora da exploração, ou adquiridos, mas sempre em agricultura biológica). Uma pessoa que só tenha baldio, não tem produção própria, portanto não podia ter produção biológica. No seguimento de algumas inspecções, tinha havido uma série de problemas e quem paga as multas é o Estado, todos nós. Portanto, o novo quadro comunitário obriga a que sejam cumpridas estas regras e isso levou a que um conjunto de agricultores que estavam em modo de agricultura biológica não pudessem receber esses apoios”, expõe Nuno Vieira e Brito.

Os selos atribuídos à produção biológica, que por cá se aplicava inclusive à produção de carne de autóctones, passarão agora por um controlo mais rigoroso, mas também muito mais difícil de certificar.

“O ponto é que, a certificação do baldio como biológico não é pelas entidades. Numa área brutal de 1000, 2000 ou 5000 hectares, não tem condições de certificar aquilo que é biológico e o que não é. As regras obrigavam a que houvesse delimitação de áreas com a concessão de gestão de um determinado espaço, coisa que não foi muito bem aceite pelos produtores. Isso saiu, e o que vai acontecer infelizmente é uma saída grande de produtores em modo de produção biológica. Em alternativa, há um aumento dos apoios para as raças autóctones, neste quadro comunitário vai ser superior”, indica ainda Nuno Vieira e Brito

Sector da Carne: Para ser viável, Matadouro Municipal de Monção “tem de mudar de local”

Ainda no que respeita à produção animal, Sónia Batista diz que o lançamento definitivo da campanha de valorização e rentabilidade da região depende essencialmente das mudanças a operar no Matadouro Municipal de Monção, que terá, segundo a engenheira zootécnica, “de sair de onde está”.

“É uma exigência, porque está localizado numa zona urbana e não tem condições higiossanitárias para se manter naquele local. Está levantada a hipótese de ser construído um novo matadouro, em Monção, com gestão provavelmente intermunicipal, embora ainda sem certezas”.

Nuno Vieira e Brito diz, a este propósito, que o encerramento do matadouro em Monção “traria um elevadíssimo constrangimento aos produtores do Alto Minho, nomeadamente aos produtores de raças autóctones”, mas também não é uma mais-valia para o produto local tal como está dimensionado actualmente.

Aquilo que está em causa é que nem sequer permite que haja o abate, sob o ponto de vista da certificação. Isto é, o abate de raças autóctones tem de ir para o matadouro de Penafiel e tudo isso, o stress do animal, as perdas de transporte e até a parte económica, tem um elevadíssimo prejuízo”, observa o coordenador do NUTRIR.

Segundo o levantamento feito pelo projecto, a grande concentração dos efectivos de raças autóctones no Alto Minho ocorre nos concelhos de Arcos de Valdevez, Monção, Paredes de Coura e Ponte de Lima.

“Faz sentido a agregação intermunicipal para que seja analisado em conjunto, porque só Monção é insuficiente para a actividade económica do matadouro. O Alto Minho precisa profundamente de um matadouro que não seja só abate”, reforça Nuno Vieira e Brito.

A proposta da responsável do estudo para o sector é que a nova unidade “permita fazer a desmancha dos animais, para que não seja comercializado só em carcaça, seja possível embalar peças em vácuo e até transformação, (em almôndegas, hambúrgueres, etc), essa hipótese está em cima da mesa”, adianta Sónia Batista.

A alternativa, avançam, está já a ser trabalhada pelo município de Monção que “já identificou uma parcela, melhor localizada”, mas a estratégia de gestão terá de ser discutida pelos organismos políticos locais e regionais.

“Aquilo que entendemos e que entende a Câmara de Monção também é que é importante para o conjunto de todas as produções, agora, a forma de organizar a sua estrutura e a sua gestão deixamos à Câmara. Nós somos meramente técnicos”, sublinham.

E sob que marca vender o produto agregador de valor?

“Há duas ou três propostas de marca registadas. Estamos em avaliação e a aguardar as novas regras do novo quadro comunitário, o PEPAC [Plano Estratégico da Política Agrícola Comum 2023-2027] e estes apoios à agricultura do agrupamento multiprodutos. A dúvida era se teríamos de colocar agricultores multiprodutos só na área da agricultura biológica. O agrupamento multiprodutos será definido para mais do que um concelho. Esse agrupamento tem de criar uma marca, que tem de ter estrutura de comercialização. A ideia é fazer esse agrupamento. Houve fraca adesão a esta tipologia a nível nacional, portanto há fundos para este apoio. O nosso ponto é saber o que comercializar. Fazemos uma marca, e depois? Ou avançamos com a marca para o mercado e sabemos o que vamos vender, ou é trabalho espúrio”, reflecte Nuno Vieira e Brito.

Sónia Batista explica que o próximo passo, antes de avançar com a apresentação da marca, é “perceber que produtos é que podemos incluir neste agrupamento de produtores, e sabendo os produtos, junto com os municípios perceber que produtores vamos aqui juntar. É essencial que o agrupamento consiga capital social suficiente e significativo para poder receber um bom valor de subsidio para os produtores, e depois avançar com a comercialização. Nessa altura teremos já uma resposta relativamente à questão do matadouro. A ideia é começar já fazer esse trabalho, mas não se faz de um dia para o outro”, frisou.

Fumeiro: Produzir em maior escala e na origem é um primeiro requisito para a valorização do IGP

Para que a marca a apresentar tenha solidez e impacto junto do consumidor local, Nuno vieira e Brito diz que é preciso incentivar a população a produzir mais e dá o exemplo do fumeiro de Melgaço, certificado com IGP [Indicação Geográfica Protegida] mas sem produção consistente.

“[No fumeiro] há pessoas interessadas em crescer. Temos um projecto PRR submetido, para aumento no efectivo pecuário, na Branda da Aveleira. Em princípio vai ser aprovado, porque está muito bem classificado, dentro de um mês teremos a decisão definitiva. É um apoio directo à produtora, para aumentar a escala de produção e criar os próprios suínos. O fumeiro IGP de Melgaço, não sabemos muito bem a origem, há zero animais registados, e é permitido, mas queremos é que produzam cá e sejam de cá”, vincou Sónia Batista.

“Não temos ninguém a produzir fumeiro aqui, o que há são produções familiares, não tem escala. Como vamos comercializar uma marca se não temos produto? Temos de incentivar as pessoas que já produzem a produzir mais e cativar novas pessoas a produzir”, considerou, avançando, numa perspectiva “optimista”, “daqui a meio ano ter tudo direito”.

Nos diversos sectores de produção a organizar, o projecto NUTRIR tem candidaturas “algumas em francas vias de aprovação”, em valores superiores a um milhão de euros. “Num trabalho feito por três pessoas que vieram para Melgaço criar um núcleo do zero, já é trabalho”, frisa o coordenador.

O NUTRIR analisa a possibilidade de explorar a produção de microalgas no território, um projecto internacional (Atlantic Area) no qual o IPVC é “chefe de fila” e que permitirá pegar em “pequenos territórios que estão abandonados, não estão a ser utilizados para nada, porque não são aráveis ou porque não tem ninguém que os utilize e colocar pequenas unidades de microalgas que depois podem ser utilizadas em várias coisas”, explica Marta Villas-Boas.

No caso do Alto Minho, o foco do projecto será “a utilização na alimentação humana, de várias formas. Inovar a gastronomia local com esse novo ingrediente, como na alimentação nas escolas. É uma boa fonte de proteína, que também pode ser utilizada para alimentação animal, cosmética, biofertilizantes, entre outros”, concretiza.

Para este efeito, tem em curso uma candidatura para o projecto que engloba informar e capacitar a comunidade que, se vier aprovado, representará cerca de 600 mil euros de investimento na região.

Castas tintas, as minoritárias que poderão lançar o Minho para além do Vinhão

Marta Vilas Boas e João Marinhas tem ainda em curso a prospecção e levantamento das áreas agrícolas que ainda preservam as castas antigas com potencial para relançar a importância dos tintos do vale do Minho.

Para já, e com o início do aparecimento da folhagem a decorrer, a equipa técnica fará o trabalho de campo de identificação das diferentes castas que estão no território e “avaliar o potencial agronómico, produtivo, mas ao mesmo tempo ver em termos enológicos qual é o comportamento, se pode ser um vinho monocasta ou se efectivamente as castas num completo fazem um vinho fantástico que seja identitário da região”, sugere.

Mas é um trabalho de prospecção porta-a-porta: “Há vinhas que não estão cadastradas, de pequeno produtor, que são para consumo próprio. Aquilo que nos interessa perceber é o que ainda existe das vinhas antigas, como o Verdelho Feijão, Pical ou o Brancelho. Temos um produtor que tem uma parcela bastante grande dedicada ao Brancelho, mas temos de perceber o que existe no território porque existem castas que já só existem em Colecção Ampelográfica, significa que geneticamente estamos a perdê-las”, nota Marta Villas-Boas.

A missão de ambos os investigadores passa por fazer entender os pequenos agricultores de que “são guardiões de um património genético que, se não for por eles, vai acabar. O nosso trabalho das minoritárias passa por, primeiro assumir a importância delas e depois incentivar à produção certificada destas castas, para que as pessoas possam instalar as suas vinhas”, reiteram.

Apoios ao estudo: Câmara de Melgaço apoia produção animal, município de Valença apoia criação de galinhas poedeiras

O NUTRIR deu ainda suporte científico à qualidade que motivou a Câmara Municipal de Melgaço a conceder apoio financeiro à produção de bovinos, ovinos e caprinos (produção e sanidade, em função do número de animais), a sair em regulamento ainda durante o corrente ano.

Em Valença, a iniciativa do NUTRIR vai fazer levantamento do número de criadores que queiram associar-se ao projecto de galinhas poedeiras de raças autóctones, no caso concreto da Minhota, ou galinha Amarela.”É a que vamos sugerir que seja utilizada no circuito para a comercialização dos ovos de raa autóctone, mas também na perspectiva da gastronomia”.

A vertente do projecto destinada ao sector etnobotânico e etnoveterinário está a ser trabalhado pelas equipas, que percorrem agora as zonas rurais de montanha com mais características identitárias, nomeadamente Castro Laboreiro, Soajo e Serra d’Arga.

Alexandre Sá e Ângela Ribeiro percorrem cada uma das três serras para “recolher saberes e tradições relacionados com as plantas locais”.

“Sabemos que é uma fonte de conhecimento que não foi alterada nem influenciada pela globalização e mudança de estilos de vida”, diz-nos o investigador Alexandre Sá, que faz a pesquisa antes de ser levada para laboratório, em Ponte de Lima.

A pesquisa parte lo levantamento das “tradições orais associadas a determinadas plantas, quer para uso medicinal, veterinário ou farmacêutico” e que, após análise laboratorial, “podem ser modelo para novos negócios”.

O Funcho do Mar, em Caminha, com interesse gastronómico, ou a Camarinha, de  micropropagação vegetativa, “produz um fruto que não cresce no resto do continente, é mais nas zonas costeiras e aqui não está a ser aproveitada. É um fruto riquíssimo, gourmet e muito apreciado. E alem disso, a parte da folha é muito rica em compostos antioxidantes, para stress oxidativo, pode ser aplicado em mil e uma coisas, da farmacêutica à alimentar, só que não podemos aplicar porque não há produção e o que temos está em vias de extinção na natureza. Há necessidade em replantar”, notam.

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