Vindima 2023: Ano qualitativamente “muito bom”, apesar da “monda natural”

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“É impressionante ver que, numa zona de fronteira como estamos, em que se falava tanto da pressão intra-fronteiriça relativamente aos valores da uva, não deixamos de perceber que são fatores pontuais e afinal o valor que estava definido era completamente alinhado com todos os mercados, mesmo o transfronteiriço”.


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Ataque do míldio aconteceu porque “há uma filosofia de tratamento curativa, quando tem de ser mudada para preventiva”

“Começamos no dia 23 de Agosto, foi a vindima mais precoce de sempre que já fizemos no Soalheiro. Começamos com teores alcoólicos baixos, mas depois na média ficaram perfeitos”, diz-nos António Luís Cerdeira sobre as vindimas, fechadas a 10 (branco) e 14 (tinto) de setembro.

A marca encerrou o período de colheitas com volumes regulares, apesar de um ano afetado por um clima diferente do habitual durante o ciclo vegetativo, “que fez com que os picos de humidade e de calor fizessem um desenvolvimento anormal de míldio”.

António Luís Cerdeira, do Soalheiro, diz que, na “visão de 180 famílias” [do Clube de Viticultores], quase todos tiveram problemas de míldio.

“O grande problema que se falou na região foi a quantidade e houve menos quantidade, em resumo global. Por outro lado, como tivemos uma nascença muito grande, aliás, podemos ver a nível nacional que há regiões que bateram recordes de produção, era uma colheita fantástica em termos de quantidade. Há produtores que apesar dessa quebra, mantiveram uma produção razoável, outros que subiram porque não tiveram problemas de míldio e outros que tiveram perdas significativas”, resume.

Quanto à qualidade dos vinhos, apesar de ainda ser tempo de fermentações, espera-se um vinho “qualitativamente bom”.

“Tivemos uma monda natural que fez com que, apesar do aspeto não muito agradável – com uma parte do cacho seca, que não afetou a qualidade na prensagem, é apenas visual – aumentou a concentração dos vinhos. Neste momento ainda ninguém pode dizer que vai ser um ano excecional porque ainda estamos em fim de fermentações, mas estamos otimistas, qualitativamente é muito bom”.

“Vamos ter um vinho de teor alcoólico moderado. Não foi um ano de teores alcoólicos muito elevados, o que é bom, nós não valorizamos já há algum tempo pela concentração de açúcar apenas, mas a acidez, o estado sanitário, a localização da parcela. Todos esses interferem”.

Contudo, António Luís Cerdeira diz ser necessário mudar a filosofia de tratamento da uva. “Há uma filosofia de tratamento curativa, quando tem de ser mudada para o novo paradigma, que é a preventiva. A estratégia preventiva não esteve a funcionar porque, a partir do momento em que houve ataques de míldio, o inóculo continuava. Temos situações de sucesso porque houve competência técnica. Temos uma pessoa dedicada aos nossos viticultores, que é o engenheiro Miguel Alves. Com certeza este foi o ano em que ele dormiu menos vezes. Os anos são todos diferentes, por isso é que temos de ter uma evolução da estratégia para a viticultura em Monção e Melgaço de maior conhecimento e não de repetição”, sugere o enólogo.

Sobre a valorização da uva, face a um ano de maiores sacrifícios financeiros por parte dos viticultores, Luís Cerdeira diz que a estratégia de valorização da uva para este ano já estava definida.

“A nossa estratégia não tem a ver com o míldio ou as quantidades. Tínhamos o ano vitícola perfeito, em termos de quantidade. O míldio apareceu mais tarde. A estratégia de valorização das uvas é constante. Estamos a ter uma muito boa aceitação dos nossos vinhos no mercado de exportação e no mercado nacional estamos a ter crescimentos, e isso sempre teve reflexo nos nossos produtores”.

“Não foi o primeiro ano em que aumentamos. Nos últimos dois anos aumentamos 30%, em contraciclo. No Covid-19, quando toda a gente ficou em casa, nos não descemos o valor da uva, conseguimos manter a valorização. Logo a seguir ao Covid, tivemos a guerra, que fez subir todos os custos, aumentamos as uvas 10%. Este ano, face ao contexto do mercado global e da nossa comercialização, achamos que devíamos fazer este aumento de preço”, explica ainda o enólogo e responsável da marca.

O preço por quilo de uva pago ao clube de viticultores, de 1,30 euros, “foi muito ponderado com as nossas contas, não fizemos sem pensar na segurança dos viticultores. A nossa estratégia não é no próximo ano fazer uma descida acentuada. Não somos uma empresa especuladora, somos uma empresa que está no território para dar credibilidade e sustentabilidade aos viticultores”, atira Luís Cerdeira.

“Só conseguimos fazer subidas de valor de uva se conseguirmos fazer comercialização com valor nos nossos vinhos. E não sei se vem dias fáceis, porque o contexto económico internacional não é fantástico. Há estagnação. O que não significa que não estejamos com a mesma estratégia de valorização”, conclui.

Ainda sobre a especulação de preços em zona de fronteira e a valorização dos produtores da Galiza, o produtor do Soalheiro diz que essa ‘ameaça’ desequilibrou o esforço da região nem fez perder uva à sub-região de Monção e Melgaço.

“É impressionante ver que, numa zona de fronteira como estamos, em que se falava tanto da pressão intra-fronteiriça relativamente aos valores da uva, não deixamos de perceber que são fatores pontuais e afinal o valor que estava definido era completamente alinhado com todos os mercados, mesmo o transfronteiriço. Quando falamos de pequenos volumes é fácil, quando temos uma estratégia para 180 famílias, temos de colocar todas no mesmo pé de igualdade. Ficamos também muito contentes porque, globalmente, tivemos novos parceiros, novas famílias que entraram para o nosso Clube de Viticultores, isso demonstra que não devemos estar muito desajustados de toda a estratégia”.

Luís Cerdeira

O preço de referência de 2023 por quilo de uva “é para manter”. “Nos últimos 10, 20 anos, nunca demos nenhum passo para trás. Depende da estratégia e dos fatores externos, mas somos uma equipa de 47 pessoas a lutar para que seja possível”.

Projecto da Aveleira: Geadas e vacas atacam videiras, mas espera-se “alguma” colheita dentro de dois anos

Plantadas em 2019, as videiras que se estendem ao longo de dois mil metros quadrados de terreno na Branda da Aveleira, um desafio à produção em altitude, ainda não lograram formar os primeiros cachos. “Tivemos um pequeno grande problema com a geada e depois com as vacas, que entraram na parcela e comeram as folhas todas das videiras, mas já está vedada”, começa por explicar António Luís Cerdeira.

Depois de três anos “a zero”, atendendo a um desenvolvimento das videiras face ao frio mais lento, os mentores do projecto continuam a acreditar.

“Acreditamos que dentro de dois anos teremos algumas uvas. A parte de baixo está mais desenvolvida, a parte de cima, menos fértil, está menos desenvolvida. As geadas não é um problema que possamos solucionar. Mas a altitude, mesmo em quotas de 500 metros, já é notório um desenvolvimento mais lento”.

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