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Texto de Horácio Faria
Engenheiro do Ambiente
(Universidade de Aveiro,1984)A celebração do “Dia do Brandeiro”, desde há três décadas, na Branda da Aveleira da freguesia de Gave, no município de Melgaço, para além de um momento simbólico para as freguesias de montanha do Alto Minho, assume uma particular importância no Norte de Portugal, dado remeter-nos para as origens do identitário cultural que configura a Portugalidade, ou seja, o sentimento que nos une enquanto nação.
As memórias das vivências, tradições e costumes dos nossos antepassados, nomeadamente, da transumância, para além de um exercício cultural, com uma notória componente didática e pedagógica, nas áreas e domínios da partilha intergeracional, constituem, na sua essência, verdadeiros compêndios da proteção e salvaguarda do Ambiente e da Sustentabilidade, presentemente, tão apreciada e apregoada pela academia. Num quotidiano pautado por uma globalização que desencadeou alterações sociais, económicas e culturais, sobressai, ao longo dos séculos, a extraordinária sapiência do brandeiro, no que concerne à adaptação do modo de vida às exigências ambientais e rigores climáticos, tendo desenvolvido, para o efeito, uma gestão adequada dos escassos recursos naturais, no âmbito de uma economia de subsistência difícil e árdua.
Nesta dinâmica agro-pastoril de montanha, que provavelmente remonta à Cultura Castreja ou mesmo a um período anterior da ocupação deste território, releva-se a subida dos brandeiros, em maio, para as zonas mais elevadas das serras e o regresso às povoações, em setembro, com a aproximação da aspereza outonal. No verão apascentavam o gado e cultivavam algumas terras nas brandas, porém a severidade outonal e o rigor do inverno tornavam impraticável a agro-pastorícia e dificultavam a vida, nestas paragens de montanha.
Recorda-se que as Nações Unidas declararam 2026 como o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, com a finalidade de mobilizar o mundo para a gestão sustentável das pastagens, destacando o papel crucial da pastorícia e a promoção do investimento responsável num setor vital para a coesão territorial e o Ambiente.

No âmbito das oscilações climáticas holocénicas e das inerentes mudanças ambientais, que ocorreram no decurso do último milénio, do presente estádio interglacial, destacando-se a Pequena Idade do Gelo – PIG (1250-1850) e o Antropoceno (1850-?), releva-se a ação crucial dos pastores e do pastoreio, assim como a relevância das pastagens de montanha, entre outros aspetos: no mosaico de habitats, nos ecossistemas, na conservação de uma biodiversidade única, na paisagem, nos serviços de ecossistema, na retenção de carbono e na mitigação das perturbações climáticas.
O “Dia do Brandeiro”, inquestionavelmente, é um exemplo notável, ao longo dos últimos 30 anos, de uma reflexão coletiva em torno de diferentes áreas e domínios do conhecimento, tendo como tema central a atualidade e pertinência da retoma de práticas agro-pastoris e ambientais ancentrais no Alto Minho, concretamente, no município de Melgaço.

A Carta Encíclica do Papa Leão XIV sob a designação de “Magnifica Humanitas”, isto é, a “Magnifica Humanidade”, apresentada oficialmente em 25 de maio último, reflete sobre os desafios da Inteligência Artificial (IA) e da era digital à luz da Doutrina Social da Igreja. Neste contexto o Papa Leão XIV alerta para o perigo da tecnologia desumanizar as relações com o semelhante, a que acrescento a eventual quebra da imprescíndivel ligação do Homem à Natureza, com as inerentes consequências para a saúde mental. O “Dia do Brandeiro” para além de um garante desta ligação à Natureza é também um momento de reflexão da importância da proximidade do Homem com o solo, com os ecossistemas e a biodiversidade, assim como da responsabilidade individual e coletiva, de cada um de nós, na proteção e salvaguarda do Ambiente e do património cultural e natural. A poderosa ferramenta IA, isto é, a inovação tecnológica e os algoritmos terão obrigatoriamente de servir o bem comum e a dignidade humana, e não apenas o poder de alguns, de forma a que o desenvolvimento equilibrado e estruturado da Humanidade abranja todos, sem exceções, com equidade, tendo presente princípios fundamentais como a racionalidade, a inclusão e a democracia.
Nestes 30 anos do “Dia do Brandeiro” não posso deixar de felicitar na pessoa do meu estimado amigo Dr. José Rodrigues Lima, enquanto fundador do Projeto Memória e Fronteira e um pioneiro no estreitamento das relações entre o Norte de Portugal e a Galiza, a feliz ideia da realização deste importante evento de homenagem e reconhecimento do papel extraordinário do Brandeiro neste espaço territorial de montanha. Salienta-se, entre muitos aspetos, as funções ímpares do Brandeiro, enquanto construtor da paisagem milenar que integra o Parque Nacional da Peneda Gerês, assim como na conservação dos ecossistemas, biodiversidade e serviços de ecossistema existentes neste espaço territorial. O legado geracional de tradições e costumes que carateriza este evento ímpar, para além da sua notabilidade na conservação do património cultural e natural é também a celebração das nossas raízes e identidade cultural, em síntese, da Portugalidade.
Afife, julho de 2026