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O RIO MINHO QUE NOS CRIOU
Quando se aproxima mais uma temporada de pesca nas pesqueiras do rio Minho, não é apenas o calendário que avança, é a inquietação de uma comunidade inteira que desperta.
Nos últimos anos, a escassez alterou o ritmo do rio Minho e acentuou o desgaste dos pescadores que, pouco a pouco, vão abandonando a atividade e deixando definhar um património secular – as pesqueiras – que foi, durante gerações, o principal instrumento de trabalho e sustento dos seus antepassados.
Não é só o peixe que falta. Falta o retorno de um ciclo que sempre sustentou famílias, alimentou tradições e fomentou afetos. Cada pesqueira abandonada é uma ferida aberta na memória coletiva, um sinal de que algo essencial se está a perder. É memória que se apaga, é património que se fragiliza.Segundo o Presidente da Associação de Pescadores das Pesqueiras, Venâncio Fernandes, “o rio Minho foi o pai e o sustento de muitas famílias, mas infelizmente já não é o que era… o rio minho está doente e ninguém o quer curar”.
Em períodos de escassez, quando a terra já não bastava para matar a fome das numerosas famílias, era o rio que assegurava o seu sustento. Para as comunidades ribeirinhas, o rio nunca foi apenas paisagem ou linha de fronteira. Representava sobrevivência e identidade coletiva. A importância deste curso de água, generoso e vital, e o seu aproveitamento económico através da construção das engenhosas pesqueiras remonta à época romana e à Idade Média, tendo estas estruturas sido progressivamente aperfeiçoadas, reforçadas e adaptadas ao longo dos séculos, em estreita relação com o saber empírico e a experiência acumulada das populações locais.

Recentemente, a Direção Geral do Património Cultural inscreveu a pesca nas pesqueiras do rio Minho no Inventário Nacional do Património Imaterial. Elas representam muito mais do que engenhos de pesca. São testemunhos vivos de um saber-fazer transmitido de geração em geração e, durante séculos, foram um dos pilares da economia local.
A memória coletiva desempenha um papel fundamental na transmissão do conhecimento entre gerações, funcionando como elo entre o passado e o presente. Uma parte significativa dessa memória nunca foi registada nem devidamente documentada, encontrando-se hoje em risco de desaparecer com o desaparecimento daqueles que ainda a detêm e a transmitem. É precisamente esta herança imaterial, frágil, mas profundamente identitária, que o Projeto Raízes se propõe preservar e valorizar, reconhecendo a memória oral como um veículo insubstituível para compreender o passado, os modos de vida e as tradições locais que moldaram a comunidade.
Aqueles que, na juventude, viveram em estreita proximidade com o rio recordam com emoção os anos áureos em que o rio Minho foi o coração pulsante da economia local.
Virgínia do Carmo Ferreira, com 97 anos, detentora de uma lucidez impressionante recorda como, na sua infância, o ritmo de pesca era tão intenso, imposto pela fartura do rio, que os pescadores não tinham mãos a medir. O seu avô e o seu pai conheciam o rio como poucos. Um saber profundo herdado ao longo de gerações. Para além das pesqueiras da família também foram procuradores da Quinta do Reguengo e armavam as suas pesqueiras mediante o pagamento de uma renda.

”O meu pai – o João Barqueiro, também apelidado de João do Cidero – e meu avô Ponciano armavam muitas pesqueiras. Lembro-me de uma a que chamavam de Centenário porque havia noites em que dava 100 lampreias. Mais do que dá agora uma temporada! O rio era muito rico e as redes saíam sempre a transbordar. Lampreias, sáveis, escalos, bogas, trutas, tainhas, monjes e enguias. Aqueles que não tinham pesqueiras pescavam à cana, com anzóis. Enfiavam o peixe num pau de salgueiro para o transportar. Na altura, também era muito utilizada uma rede chamada vintenla quesaía sempre cheia de peixe miúdo, principalmente escalos”.
(Esta rede já não se usa e, praticamente ninguém se lembra, nem existe menção em documentos escritos- mais adiante vamos publicar um artigo sobre o tema).
“(…) Quando me levantava ia à adega ver as lampreias que eles traziam durante a noite. Usavam uns cestos de costela de madeira muito grandes para colocar o peixe. Também usados nas vindimas. Naquelas noites que havia muito peixe os pescadores nem vinham para casa. Ou ficavam nas choças ou faziam umas palhotas em cima dos penedos, com palha centeia, e ficavam ali para desarmar ar redes e vigiar o peixe pois não faltava quem o quisesse roubar. De tanto peixe, as redes ficavam muito cheias e rebentavam. Por isso havia que as desarmar várias vezes… Na altura, todo o peixe tinha de pagar imposto. O posto da Guarda Fiscal funcionava como ‘alfândega’. A maior parte dos pescadores desarmavam e transportavam o peixe de noite pois era mais fácil fugir para não pagar.

De dia, os guardas estavam à espreita e era mais difícil escapar. Às vezes fechavam os olhos porque lhes acenavam sempre algum peixe. O peixe que era comercializado tinha de ser declarado. O meu avô tinha 4 mulheres para vender o peixe dele. Duas andavam pela Vila (as Mouchas) e outras duas, de Apião, andavam pelas aldeias. Usavam umas bacias grandes de zinco à cabeça para transportar o peixe. Eram tão grandes e iam tão carregadas que lhes custava suportar o peso. Andavam assim o dia inteiro. Vendiam a 5$00 (escudos) cada sável. Como não havia arcas frigoríficas, os sáveis tinham que ser vendidos rapidamente senão estragavam-se. No caso das lampreias era mais fácil pois os viveiros mantinham-nas por algum tempo. O meu avô tinha dois. Mas era necessário vigiá-los. Uma vez, na Páscoa tinha os viveiros cheios com lampreias para dar resposta às encomendas e de madrugada roubaram tudo. Cada lampreia naquele tempo vendia-se a 3$00 ou 4$00, conforme o tamanho, e as mais pequenas a 2$50. O meu avô chegava a escalar mais de 200 lampreias naquele tempo. Algumas delas iam para pagar a renda à Quinta do Reguengo. Muitas, faziam parte da ementa nos almoços das sachadas e da lavoura, geralmente, assadas na brasa ou passadas por ovo. Era um autêntico pitéu.

O meu avô também negociava com salmões. Na altura saíam muitos. Chegavam a pesar 10 e 14 Kg e eram vendidos a 20$00 o Kg, o que era muito dinheiro naquele tempo. Para além dos que pescava também comprava aos outros pescadores.
Vendia-os para Espanha, para Vigo, onde tinha um comprador. Isto, antes de 1936 data em que começou a Guerra Civil Espanhola. Depois vendia-os para Monção, através do senhor Martins de S. Martinho, comerciante. Fui lá muitas vezes levá-los. Despachava-os pela camioneta para Monção e dali muitos iam para os restaurantes de Lisboa. Como era um peixe caro, aqui não se vendia. Nós comíamos alguns, mas raras vezes. Quando comíamos escolhiam sempre um salmão grande. Um pedaço era para os guardas do posto, outro, para os pides – havia sempre dois no posto – e nós comíamos o resto que dava apenas uma refeição.Durante alguns anos assisti a esta fartura. Às vezes o peixe era difícil de vender porque havia pouco dinheiro. Os sáveis e as savelhas quando ficavam para o outro dia eram vendidos mais baratos e, por vezes, o meu avô oferecia-os aos vizinhos.
Os sáveis eram pescados nos redeiros. Estes eram diferentes dos botirões pois não tinham arcos. Eram grandes e tinham alguns feitios mas eram fáceis de fazer. Eu ainda ajudei a fazer alguns. Havia uma pesqueira chamada Pombeiro que armava com o redeiro e dava muito peixe de escama: salmões, sáveis, savelhas e trutas. Também se armava com os botirões para as lampreias, que saíam às carradas. Era uma fartura. Lembro-me de o meu pai apanhar uma truta com 5 kg e ele ofereceu-a a um amigo. Era tão boa, mas deu-a. Eram tão gostosas como o salmão e vendiam-se muito bem. Eram mais caras do que os escalos, mas as pessoas que tinham dinheiro procuravam-nas. Havia tantos escalos que às vezes o meu avô e meu pai tinham muitos cestos das vindimas cheios. Era o peixe mais baratinho e o que se vendia melhor. Os que ficavam, o meu avô escalava-os e punha-os no fumo pendurados pelo rabo. No verão comiam-se cozidos com batatas. Eram uma delícia. Muitas pessoas compravam e faziam o mesmo para os conservar e ter peixe o ano todo.

Depois fizeram a barragem em Espanha ficou tudo diferente. O rio nunca mais deu esta fartura! Se, hoje, o rio Minho fosse assim farto as pesqueiras não eram abandonadas. Seriam tão bem tratadas como as videiras do alvarinho. Com a falta de lampreias até se vendem muitas vindas de França. Mas não são tão boas como a lampreia do rio Minho e como a nossa, que chega aqui mais batida e mais magra e é muito mais saborosa. Tenho tantas saudades daquele tempo!”
Este relato evoca, com saudosismo, a importância económica, social, patrimonial e ambiental do rio Minho. Problemas que hoje o assolam, como as barragens, a poluição e a proliferação de espécies invasoras, não existiam na altura. O Minho corria livre, limpo, com as suas 900 pesqueiras existentes nas duas margens e plenamente integrado na vida das comunidades ribeirinhas que mantinham com o rio uma ligação profunda, quase natural. A pesca constituía um complemento da agricultura. Essa relação está ainda inscrita na paisagem. Persistem vestígios dos campos agrícolas que desciam, em socalcos, até às margens do rio e que se encontram abandonados, cobertos por vegetação, como se a memória do esforço coletivo estivesse a ser lentamente engolida pelo silêncio.
Também os antigos acessos ao rio, outrora caminhos de uso diário, foram sendo esquecidos. Onde, antes, passavam pessoas e animais restam, hoje, trilhos fechados pelo mato, que os pescadores, a muito custo, ainda vão abrindo. São testemunhos discretos de um tempo em que o rio não era apenas paisagem, mas sustento, trabalho e vida partilhada.
Atualmente, encontram-se ativas cerca de 160 pesqueiras do lado português e aproximadamente 90 do lado espanhol. Ir ao rio tornou-se, para muitos, um hábito quase visceral, mais próximo de um vício do que de um meio de subsistência, já que a escassez de peixe deixou de garantir rendimento. Ainda assim, preservar as poucas pesqueiras que permanecem ativas, bem como as artes de pesca tradicionais, é preservar a identidade de um território e assegurar que a voz de quem sempre viveu do rio continue a ser ouvida.