Publicidade

No final de 2025, a Santa Casa da Misericórdia de Melgaço inaugurou uma nova ala da Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI) “Cantinho dos Avós”, uma das duas respostas de Lar para a população idosa de que dispõe, passando assim de 31 para 51 utentes naquela unidade.

Há precisamente dez anos – em 2015 – o mesmo edifício, que era então o perspectivado novo Lar de Eiró, tinha obras paradas há três anos, já com sinais de degradação e os cofres da Misericórdia melgacense não gozavam de melhor ‘saúde’: Havia problemas de financiamento da obra, com um valor em dívida próximo dos 450 mil euros, equipamentos avariados ainda mesmo antes de qualquer uso e um empreiteiro à procura de um bem da Santa Casa para penhorar, de forma a garantir o pagamento de 444 mil euros. A isto, somavam-se ainda 800 mil euros em dívidas à banca.
Jorge Ribeiro, atual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, tomou posse no final de 2014 e começou, aos primeiros dias de 2015, a trabalhar nesse e noutros problemas financeiros e estruturais da IPSS, praticamente insolvente (não juridicamente, mas factualmente sem dinheiro nos cofres). Mudou o ciclo, mas precisou de uma década para olhar para as concretizações com desafogo.
No ano em que completou 10 anos na presidência da Mesa Administrativa, o provedor recordou alegrias e alguns dissabores provados ao longo do trajeto, mas que tornaram possíveis obras de ampliação em várias frentes e em todas as valências, além de transformar o ‘garrote’ de cerca de 1,2 milhões de euros de dívida em receita na ordem de 3 milhões e meio de euros, em 2025.
“Foram tempos difíceis, e continuam a ser, não ficou tudo resolvido por um golpe de mágica, mas passados seis meses o lar estava aberto”, recorda Jorge Ribeiro, ainda sobre a ampliada ala da ERPI “Cantinho dos Avós”.
Foram precisos mais alguns anos (e fundos europeus pelo meio) para que o edifício ameaçado de penhora, desenhado para 31 camas, ganhasse uma nova ala e autonomia operacional e financeira. Mas todas as respostas sociais da Misericórdia estavam a precisar de reforma estrutural, como conta Jorge Ribeiro:
“Depois viramo-nos para o ATL. Funcionava nos fundos do Lar Pereira de Sousa, em condições que não achávamos próprias. Olhámos para os anexos do Hospital [o antigo Hospital da Misericórdia] e fizemos uma intervenção na ordem dos 150 mil euros. Foi preciso refazer tudo, até a cobertura tivemos que mudar, porque ainda tinha amianto”, explicou.

Com a inauguração do espaço equipado para Atividades de Tempos Livres das crianças do concelho, urgia a renovação das respostas de Creche –espaços exteriores e interiores, um investimento da ordem dos 200 mil euros (financiado pelo Norte 2020 com apoio do município) – e a recuperação do património histórico, por altura da comemoração aos 500 anos da Misericórdia de Melgaço.
Outra das respostas sociais de maior expressão no universo de serviços da Misericórdia de Melgaço ganharia fôlego para obras em 2021, com uma pandemia a meio e um Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) especialmente dedicado a dar novo impulso aos projetos de cariz social através do PARES (Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais).
A ampliação do Lar Pereira de Sousa, que passará de uma capacidade de 55 para 87 vagas, assim como a remodelação profunda nas áreas destinadas aos serviços, representam um investimento total na ordem dos 4,8 milhões de euros e uma afirmação positiva nas respostas sociais no concelho, sobretudo na zona central do concelho.

“O Lar Pereira de Sousa é a estrutura principal da Misericórdia, é aqui que funcionam os Serviços Administrativos e toda a parte logística. Temos aqui sediado o Serviço de Apoio Domiciliário e a ERPI. Era um edifício com cerca de 40 anos, carecia de uma intervenção urgente”, justifica o provedor.
Em 2021, a equipa de projetos formalizou as candidaturas – a do Lar Pereira de Sousa e do “Cantinho dos Avós”, entretanto já finalizada e em funcionamento – mas não foi ainda no primeiro intento que a resposta permitiu lançar procedimentos para a obra.
“Fomos notificadas do indeferimento das candidaturas, foi um balde de água fria, mas não nos demos por vencidos. Reclamámos, reunimos assinaturas, reunimos parceiros, fizemos chegar a documentação e conseguimos que, em março de 2022, a situação fosse revista e ambos os projetos fossem aprovados”, concluiu.
Contudo, considerando a ‘responsabilidade’ social também para com a população mais jovem, cumpria-se adaptar as respostas de Creche e infantário, já esgotadas e colocadas sob maior pressão quando a chegada de imigrantes da América do Sul, Brasil e Venezuela, famílias jovens com filhos enquadráveis nestas respostas precisavam de uma solução, assim como a implementação da gratuitidade das creches, em 2022.
“Foram chegando cá famílias de imigrantes e muitas dessas famílias, ou as mães, trabalham aqui connosco e são famílias jovens, o que aumentou a procura por essas respostas. Juntando a isso o facto de, em 2022, o Governo ter criado a gratuitidade das creches, fez com que a procura tivesse aumentado. Rapidamente deixámos de ter capacidade de resposta e criou-se um problema porque as famílias, principalmente as que chegam de fora que não têm retaguarda, tinham um problema”.
Uma candidatura ao PRR, também aprovada, na ordem dos 200 mil euros, permitiu o alargamento da resposta de 42 crianças para 84. Mas vamos a números. Jorge Ribeiro diz-nos, em síntese, os aumentos de vagas operados nas várias respostas ao longo dos anos.
“Em termos de infância, mais do que duplicamos a nossa capacidade de resposta, passamos de 100 para 209. No que diz respeito aos idosos, vamos passar de 105 para 208. Em colaboradores, tínhamos cerca de 75 em 2014, neste momento estamos com 130.
Em termos de receita da nossa atividade – que é um número também interessante – passámos de cerca de um milhão de euros em 2014 para um orçamento de 3 milhões e meio em 2025. Em 10 anos, triplicamos”, contabilizou.
Este sucesso que temos tido nestas candidaturas não é alheio a algumas medidas que tomamos em termos de estrutura, nomeadamente a criação do Gabinete de Inovação e Projeto. Apesar deste volume de obras, muitas delas simultâneas, como foi o caso da Igreja, da Creche, do Cantinho dos Avós e do Lar Pereira de Sousa, tivemos a coragem e capacidade de fazer tudo internamente, desde a contratação pública aos pedidos de reembolso, acompanhamento dos projetos, é tudo feito pela nossa estrutura, com os nossos técnicos e é de facto algo que nos orgulha. Não contratamos serviços, não contratamos recursos humanos para efeito, utilizamos os nossos recursos humanos, formámo-los para conseguirem acompanhar, acumulando outras funções”, congratulou.
