Projeto Raízes foi à escola lançar sementes: Os mais novos encantaram-se com o ciclo do pão


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OUTUBRO 2025: O Projeto Raízes foi à escola lançar sementes

No âmbito das comemorações do Dia Mundial da Alimentação [que se assinala anualmente no dia 16 de outubro], o Projeto Raízes foi até à escola com uma missão muito especial: lançar sementes de conhecimento, memória e respeito pela terra.

Falamos sobre um dos alimentos mais antigos e fundamentais da nossa dieta: o pão. Um alimento tão simples, mas com uma história tão rica e essencial à vida.

Partilhamos com as crianças o ciclo do pão e como este era produzido antigamente, quando ainda era a base da alimentação nas casas dos melgacenses. Nessa época, vivíamos em maior harmonia com a natureza, respeitando os seus ciclos e a sua força, desde a plantação do grão até ao uso da força da água nos moinhos para o transformar em farinha.

Explicamos como a geografia do território influenciava a alimentação das populações: nas zonas mais baixas, junto às ribeiras férteis, cultivava-se o milho; nas zonas de montanha, mais agrestes, semeava-se o centeio, resistente ao frio e à dureza dos solos. Dessa diversidade nascia também uma variedade de pães, como o pão castrejo, feito sobretudo de centeio (com um sabor mais rústico e intenso) e a tradicional broa de milho (de textura densa e sabor mais doce).

Para tornar a experiência ainda mais viva e sensorial, a comunidade escolar teve a oportunidade de ver uma exposição com os diferentes tipos de pão e, claro, de os provar. Ali, entre cores, texturas e histórias amassadas ao longo de gerações, alunos e professores puderam tocar, observar e saborear cada pedaço. Foi um momento de descoberta e partilha, capaz de unir passado e presente como se ambos conversassem entre si. Um momento de descoberta e partilha que ligou passado e presente e que contribuiu para manter vivas as tradições que nos alimentam. Não apenas o corpo, mas também a alma.

Foi especialmente enriquecedora a presença e o testemunho de Dona Leonor Domingues, castreja de gema, que desde os seus 13 anos viveu estas práticas, herdadas das gerações anteriores.

Com carinho e sabedoria, partilhou com os alunos como se fazia pão quando tudo dependia do trabalho da comunidade, desde as sementeiras, as colheitas, as malhadas, as idas aos moinhos, os fornos comunitários. Tudo era partilhado com respeito e entreajuda. Era assim que se vivia e sobrevivia.

O pão era mais do que alimento, era um elo entre as pessoas e uma ligação à terra. Era fruto da autossuficiência, feito com ingredientes locais e fermentado com métodos naturais que honravam os antepassados, como é o caso do fermento natural.

Com os alunos do 6.º ano, realizamos uma oficina prática onde ensinamos a preparar o fermento natural, também conhecido como massa mãe, isco ou massa emprenhadora. Trata-se de uma das formas mais antigas de fazer pão. Os primeiros registos remontam ao Antigo Egito. Esta técnica ancestral foi sendo transmitida de geração em geração ao longo de milhares de anos, mantendo-se ainda hoje uma alternativa simples, saudável e sustentável.

O fermento natural possui várias vantagens: facilita a digestão do pão, aumenta o valor nutricional, favorece o desenvolvimento de bactérias e leveduras benéficas (que, apesar da cozedura, deixam benefícios) e fortalece o sistema imunitário.

 Ensinar as crianças a fazer o fermento que faz o pão com as próprias mãos é muito mais do que uma atividade.  É um gesto de resgate cultural, é passar adiante o valor da autossuficiência, do respeito pela natureza e da importância de honrar quem veio antes de nós.

E são essas sementes, plantadas hoje, que vão florir amanhã nas mãos das novas gerações. Uma experiência, trabalhar com as crianças e os jovens, que queremos, sem dúvida, repetir.

Agradecemos a colaboração da Dona Leonor Domingues e a abertura do Agrupamento de Escolas de Melgaço para estas atividades enriquecedoras – com especial enfoque para a Direção e a equipa de docentes e profissionais envolvidos- e o apoio da Real Ficção.

NOVEMBRO 2025: Alunos do Agrupamento de Escolas realizaram trabalhos sobre o pão

Diz o povo que “grão a grão, enche a galinha o papo”: os grandes resultados constroem-se de forma gradual e consistente.  É precisamente assim que nos sentimos: ação após ação, vamos ajudando a nossa comunidade a consolidar o seu sentido de pertença e ligação a esta terra.

O Projeto Raízes é precisamente isto: trabalhar com as diferentes gerações, aproximando-as, ligando-as ao território, às tradições, usos e costumes que passam de geração em geração, para que nunca se quebre o fio que nos liga à nossa identidade e à nossa história. Assumimos o compromisso de manter vivas as raízes que nos distinguem e nos tornam únicos.

É com enorme satisfação que constatamos que a atividade realizada no Agrupamento de Escolas de Melgaço despertou a curiosidade das nossas crianças, estimulou questões e, sobretudo, lhes deixou o desejo de continuar a aprofundar o conhecimento sobre quem somos enquanto comunidade.

DEZEMBRO 2025: O Projeto Raízes levou crianças a Alvaredo para ‘verem’ como se faz pão com a senhora Dorinda

Em parceria com a Santa Casa da Misericórdia, levamos os meninos, com idades compreendidas entre os 3 e os 6 anos, até à freguesia de Alvaredo para viverem (não apenas aprenderem) a arte antiga de fazer broa de milho.

Um saber que se transmite com as mãos, com o cheiro do pão saído do forno, com a textura da massa, com a magia de transformar ingredientes simples em algo cheio de alma. E eles fizeram tudo isso: meteram as mãos na massa com entusiasmo.

A guardiã desta tradição foi a Dorinda – ou Dim, como todos a conhecem – que dedica a vida a manter vivo este saber antigo. Com a sua calma, carinho e sabedoria acumulada ao longo de uma vida inteira, mostrou aos mais pequenos cada passo desta arte: peneirar a farinha, juntar o fermento, amassar com força e alma, levar o pão ao forno de lenha e esperar, com aquela paciência tão própria das coisas feitas com amor, que as “petelas” ganhassem cor e ficassem no ponto para serem consumidas.

Neste caso foram devoradas, ainda quentinhas, com chocolate, o que fez as delícias dos pequenotes. Foi uma experiência rica, genuína e cheia de significado especialmente numa época em que tantas tradições parecem esbater-se, se diluem e correm o risco de desaparecer.

E é exatamente por isso que o Projeto Raízes existe: para trazer estas histórias à superfície, dar a conhecer este património que é nosso, despertar o fascínio dos mais novos e fortalecer a ligação à nossa terra, às nossas memórias e às pessoas que mantêm vivas estas práticas cheias de identidade.

Um agradecimento muito especial aos educadores da Santa Casa da Misericórdia, à Manuela Lobato, ao David Pereira e à Carla Domingues pelo interesse, dedicação e pela diferença que fazem com estas iniciativas.

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