“A Guerreira” – 3 de 3: “Estou bem, Majestade. Tenho cicatrizes mais antigas que me marcaram bem mais profundamente”

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Inês, sorrateira, preferiu esconder- se atrás de uma carroça carregada de barris, tentando assistir à batalha, na qual era impedida de participar. Agachada para que não a vissem, espreitava os movimentos das capas escuras dos soldados.

Texto: Vera Nobre
Imagens: Geradas por IA

Grafismo e prompt: JM

Continuação:

À defesa, os castelhanos atiravam enormes pedregulhos para a base das muralhas de forma a esmagar os assaltantes. Ouviam-se os urros dos feridos num turbilhão sangrento.

De ambos os lados, os besteiros disparavam virotes velozes. A certa altura, um só virote, envenenado e certeiro, penetrou pela viseira do bacinete do ajudante de campo do alcaide. O nobre castelhano morreu imediatamente ferido pelo virote, o que solevou grande perturbação nas hostes inimigas. Os portugueses rejubilaram e por momentos pensaram que a rendição do castelo estaria iminente. Mas a bandeira com os leões de Castela continuava a adejar ao vento por cima da muralha.

Os portugueses insistiam em abalroar com as armas os portões do castelo, tentando com fortes pancadas e empurrões, derrubá-los.

A certa altura, soou uma trombeta no cimo da torre do castelo e todos se voltaram naquela direção, ficando boquiabertos quando viram o alcaide, que berrava:

Dom João, olhai o refém que aqui temos! Justiça seja feita pela morte do nosso bravo cavaleiro que vós acabastes de matar! Um dos vossos, um português, pagará com a sua sorte pela vida dele!

O alcaide segurava um homem agarrado por uma corda, com os dois braços ligados atrás das costas. Voltou-se para a sua vítima enquanto pronunciava umas palavras inaudíveis. Depois, confiou o homem a dois soldados que lhe puseram uma corda ao pescoço. Estes lançaram-no da muralha abaixo com força, gritando com toda a energia empregue no ato. O homem caiu no vazio, enforcado pela corda presa às ameias, por alguns segundos agitaram-se as pernas e os braços, depois mais nada nele se mexeu e ficou ali morto, de boca escancarada. Então, os soldados largaram a corda, soltando o corpo que caiu no solo violentamente.

Apesar da distância, alguns homens do arraial reconheceram-no. A vítima era um deles, pertencia a uma família que habitava no interior das muralhas. Era Martinho.

Não pode estar morto. — Tartamudeou Inês, o coração caindo-lhe no peito. Saiu do seu esconderijo e correu com todas as suas forças, tropeçou e arrastou-se na direção do seu amado, deixando a mente flutuar até um lugar quieto e profundo, enquanto se ajoelhava sobre o corpo de Martinho para lhe observar o rosto. Os seus dedos trémulos tocaram a túnica de linho sobre o corpo endurecido e afloraram-lhe o rosto gélido. Ela soltou um soluço e beijou os lábios gretados de Martinho, recordando a sua respiração acelerada quando se beijavam à beira-rio. O gelo da morte reluzia nos olhos de Martinho e Inês fechou-lhe as mãos sobre o peito, deixando-o depois aos cuidados dos escudeiros que vieram buscar o cadáver.

A dor que transportava nas suas veias pulsava ao ritmo do coração, como badaladas. Levantou os olhos para a muralha, de onde tinham atirado Martinho para a morte e reconheceu o vulto da Renegada, empoleirada entre as ameias, coberta com um manto escuro, de onde sobressaía um olhar maléfico.

Maldita sejas, rameira! Ele morreu por tua culpa! Não o merecias, ele era um homem bom! — uivou-lhe Inês, agarrando-se com as mãos à muralha, como se a pudesse escalar para derrubar a Renegada.

Agora és tu quem deve morrer! — respondeu a Renegada, soltando do capote os cabelos fulvos, que esvoaçaram ao vento como chamas. — Se o alcaide-mor autorizar, desafio-te para um duelo fora das muralhas. Logo veremos quem comanda em Melgaço, se são mulheres como tu, ou como eu!

Tu querias esta oportunidade. Não é pela coroa, é para vingar Martinho. – Enevoada de emoção, Inês ganhou coragem, eriçou-se e respondeu:
— Sim, aceito! Vou-te matar, cabra!

Em pouco tempo, o alcaide-mor e o seu adversário português aprovaram a luta entre as duas mulheres e acordaram as condições em que se estabeleceria. Unia-se o desejo de vingança das mulheres à decisão final de quem ganharia a guerra.

A vossa força é a nossa, mulheres! — decidiram os chefes dos dois exércitos.

Assentou-se que o confronto se realizaria num campo a meia distância entre o arraial e o castelo e abriu-se também uma trégua entre sitiantes e sitiados para que todos pudessem assistir ao insólito combate. Juntou-se muita gente, todos ávidos de espetáculo. Todos os adarves das muralhas estavam cobertos de gente. Povo, homens de armas com cascos cintilantes, mulheres com capas de cores vivas, os cavaleiros, todos esperavam, num vozear caótico, a hora do desafio.

Finalmente, ouviu-se o sino da torre albarrã, e as duas mulheres, uma saindo da porta do castelo, outra destacando-se da multidão do arraial, apareceram a pé, armadas, como escudeiros, de cotas de malha de metal e loudéis, ambas com espadas que lhes tinham sido entregues solenemente. Inês, muito morena e entroncada, trazia no loudel a cruz vermelha de S. Jorge. A Renegada, alta e magra, com os cabelos ruivos transbordando do casco de ferro, vestia uma cota de malha, com o leão vermelho de Castela em campo branco.

De ambos os lados, soaram as trombetas. As aclamações — por Portugal, por Castela! — bradaram nos ares. Duma parte e de outra, todas as atenções convergiram para as duas mulheres que caminhavam ufanas, de cara descoberta.

Por mais calma que pretendesse parecer, Inês fervia de raiva no seu íntimo. Eu valho mais do que ela.

Mulheres, aprestai-vos! — ordenou o júri.

Elas assim fizeram, fincando pé em lados opostos da arena improvisada. Ambas sacaram das suas espadas. O repique de um sino indicou que podiam começar. Dominando Inês graças à sua estatura, a sua adversária avançou com ferozes golpes de espada, que Inês, saltando-lhe em frente, aparava no escudo.

A Renegada exalava e arremetia com ímpeto, levantando terra no seu rasto. Inês tentava esquivar-se aos golpes de espada, contornando-a. Por fim, agarrando na perna magra da traidora pelas mãos, arremessou-a para trás, como se ela fosse feita de penas. As aclamações dos espetadores abafaram o rugido de dor da Renegada ao cair no chão, mas este ficou-lhe gravado no rosto. De qualquer forma, conseguiu pôr-se de novo de pé, tendo perdido a espada.

Dá-lhe, Inês! — gritaram os espetadores.

Aclamavam por sangue derramado na terra. Precisavam de o ver para acreditarem que os adversários poderiam ser derrotados. Era a promessa que queriam, o sinal de que não voltariam a ser castelhanos.

O sangue escorria já da boca da Renegada, pintando-lhe um rio vermelho pelo pescoço abaixo.

Pobre tola — resmungou em surdina Inês — Vou acabar contigo.

Irrompeu então, olhos em brasa contra a traidora, num salto, não a deixando levantar-se. Deu-lhe pontapés e cuspiu-lhe. De rompante, estacou, a cota chocalhando devido à paragem súbita. Um silêncio mortal caiu naquele lugar, só interrompido pelo cantar dos pássaros. A Renegada tentou erguer-se, levantou os braços, as mãos trementes. Antes que se pudesse recompor, a mão de Inês puxou-lhe os cabelos e segurou-lhe o pescoço, começando a apertar-lhe a traqueia. Ao mesmo tempo, voltou a pontapeá-la, lançando-a de novo ao chão de bruços. Inês poderia então trespassar-lhe o corpo com a espada. Mas decidiu espetá-la na areia. Fitou a Renegada com desprezo, abrindo e fechando os dedos crispados nos flancos, para depois sair altivamente de cena, assinalando assim o fim da luta.

Caída num monte de terra, a Renegada imóvel, fixava o céu.

Inês, com uma mão coberta de sangue seco, seu e alheio, encaminhou-se em direção ao rei, com o coração a bater-lhe descompassadamente. Com os botins rasgados, pisou um estandarte castelhano, espalhando a lama sobre o desenho bordado das presas de um leão na bandeira vermelha e branca.

Majestade, ficou decidido como combinado. Venci, por isso o castelo de Melgaço é vosso!

Todo o arraial português gritava o seu nome, aclamando-a. Quatro besteiros carregaram Inês aos ombros, triunfalmente, como se de um cavaleiro vitorioso se tratasse. O som das trombetas encheu os ares, acompanhadas pelos adufes e pandeiros do povo. Os guardas do Rei aglomeraram-se à volta de Inês e conduziram-na à sua presença:

Rapariga, estás ferida? Precisas de tratamentos? — perguntou o Rei em tom paternal.

Estou bem, Majestade. Agradeço-vos a vossa preocupação. Tenho cicatrizes mais antigas que me marcaram bem mais profundamente, até aos ossos.

Ao ver a sua expressão abatida, o rei aproximou-se dela, tocando-lhe num ombro:

És uma mulher valente! Enganei-me a teu respeito! Afinal, uma mulher como tu igualou um soldado dos meus e ajudou-me a cumprir o sonho de vencer os castelhanos! Atenderei um pedido teu como recompensa, seja ele qual for!

O rei diz que se enganou — Inês estremeceu, mas não contrariou aquela afirmação humilde vinda do rei, que a agraciava. Às mulheres, normalmente, não era destinado este tipo de tratamento. Olhou em seu redor e orgulhou-se ao ver os homens de armas emudecidos perante tal situação.

A minha vitória chegou tarde demais para mudar o meu fado. Perdi o meu amado e com ele o futuro que sonhava. Agora só me resta continuar a ser a filha do moleiro e poder ficar a viver na minha terra, Majestade. É essa a minha recompensa.

— Claro, esta terra é agora legitimamente nossa. — afirmou o Rei.

Seguiu-se um longo silêncio. Apesar da vitória, ela era uma mulher profundamente ferida e frágil. A sua cabeleira escura escondia-lhe as lágrimas e o olhar vazio tentava estancar as memórias ainda frescas e dolorosas. Uma mulher à mercê do destino que lhe tinham imposto, dando-se conta ali mesmo que, malgrado o seu ímpeto e a sua determinação, ela tinha ajudado a moldar o destino do reino, mas não o destino que tinha sonhado para si própria. Ficar com Martinho.

Fim

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