“A Guerreira” – 2 de 3: “O que dizes, sua vendida aos ‘perros’ castelhanos?”

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Avistou Martinho, distinguindo-o pela sua estatura alta e os cabelos encaracolados que lhe tocavam o colarinho da túnica de linho verde. Segurava pela canga um carro de bois, carregado de palhas em medas. Dava-lhe as costas e estava ali parado, em conversa animada com uma mulher vistosa, de cabeleira riçada e ruiva. Inês reconheceu-a, era uma portuguesa de quem todos falavam mal, chamavam-na a Renegada, a rameira dos castelhanos.

Texto: Vera Nobre
Imagens: Geradas por IA

Grafismo e prompt: JM

Continuação:

Num rompante, Inês interrompeu-os, lançando a argumentação que tinha preparado durante o caminho:

Martinho, como podes trair as tuas gentes e trair-me a mim? Se vives em terra portuguesa como aceitas que seja governada por castelhanos? Vem, meu amor, junta-te a nós, ainda nada está perdido! El-Rei Dom João vai montar um grande arraial à volta do castelo, os castelhanos vão ficar cercados e serão vencidos!

Martinho, surpreendido por ver surgir Inês tão alvoraçada, quedou-se petrificado. De braços caídos ao longo do corpo, não respondeu, olhando-a embaraçado. A mulher, que até ali se tinha mantido calada, observando-os de forma trocista, atravessou-se então com arrogância no meio deles. Gritou de mãos à cintura:

Ensandeceste! O teu rei não é o nosso rei! O Martinho decidiu lutar por Castela, não percebeste? Daqui ele não sai! Castela paga-nos a ceia e aquece-nos a casa, fica-te tu com esses aventureiros portugueses!

O que dizes, sua vendida aos ‘perros’ castelhanos? – respondeu Inês, virando-se para a mulher – Não sabes que nós nos amamos?

Inês, interveio Martinho, devagar e com modos cautelosos o que acabaste de ouvir é verdade. Não posso explicar-te melhor. Vou ficar deste lado, é aqui que tenho a minha casa e os meus haveres. Mais vale esquecer tudo o que se passou entre nós.

    A Renegada encostou o seu amplo decote ao braço de Martinho e sussurrou-lhe algo ao ouvido, ao que ele respondeu com uma forte gargalhada.

    Inês olhou para os dois, incrédula. Não fosse a atitude comprometida dele e teria acreditado que tudo não passava de um abuso daquela mulher descarada. Mas não, os olhos dele disseram-lhe que tinha sido apanhado em falta, que ele a tinha traído com aquela mulher vil.

    Por momentos, Inês fechou os olhos, recordando os abraços quentes do amante à beira-rio. Mas ele traíra-a, já não era o seu homem, já não lhe era nada. Cerrou os punhos e o seu rosto moreno inflamou-se de sangue, humilhada.

    Desgraçaste-me! Trocas-me pelos castelhanos e por esta “Renegada” portuguesa que também prefere trair os nossos?!gritou Inês, cambaleante e apertando a cabeça nas mãosNunca mais te quero ver, cão!

      Ficara cega de fúria. Cão, sim, um homem como ele podia apenas ser um cão. A palavra amargou-lhe na boca, encheu-lhe a cabeça de dolorosas ressonâncias, mas tentou manter-se firme. No seu íntimo, pediu a Deus que fosse tudo uma mentira, que Martinho se ajoelhasse e lhe cobrisse as mãos de beijos em desculpas. Mas isso não aconteceu e Inês saiu a correr sozinha do castelo, cega pelo desespero ou pelas lágrimas, no preciso instante em que os guardas fechavam as duplas portas do castelo que, a partir daí, os separaram.

      Fora das muralhas ecoavam já os cascos dos cavalos, lançados a toda a brida, montados pelo exército do rei português que vinha montar o cerco ao castelo. Cavaleiros empunhando arcos e lanças irromperam, como surgidos do nada, numa dobra do terreno, surpreendendo Inês, a caminho de casa pela estrada de terra. O soar acre das trompetas ecoava no ar, acordando os locais ao sossego habitual daquelas paragens.

      Como é frágil a sorte dos mais humildes – suspirava Inês, abstraída tristemente nos seus pensamentos, ziguezagueando no caminho – Tão frágil como uma gota num ramo de árvore, que empurrada pela mais leve brisa, cai na voragem da terra. Não somos donos das nossas vidas, de cima dos seus cavalos os senhores da guerra é que decidem o nosso destino. Em Melgaço, onde todos nos conhecíamos pelos nomes desde crianças, agora dividimo-nos em amigos e inimigos!

      Inês olhou para o castelo que deixava para trás e que se desenhava, ameaçador, contra o céu enevoado de inverno. Os três torreões das muralhas, embandeirados de panos bordados das armas reais castelhanas e a altiva torre de menagem recortada por balhesteiras eram um cenário familiar desde a sua infância. Junto com o cheiro de fumo e de névoa, o vento trazia- lhe travos de nostalgia de festas e garraiadas no terreiro poeirento do castelo. Aquele lugar, porém, tornara-se agora o reduto dos inimigos castelhanos, entre os quais se encontrava também o homem que ela amara.

      Chegou ao moinho cansada e pesarosa. Esquivando-se às perguntas da mãe, trepou pela escada, de madeira gasta, moldada às mãos que a sobem e descem cada dia, e foi-se deitar na tarimba que lhe servia de cama.

      Nessa noite, Inês dormiu mal, imersa em sonhos turbulentos, dilacerada pela traição. A traição de Martinho, mas igualmente a sua. Ambos tinham quebrado as juras feitas à beira-rio de tudo fazer para impedir que as suas vidas se apartassem. Ele não o fez, ela não o pode fazer. Duas coroas e duas causas diferentes os dividiam agora.

      Os primeiros alvores do dia seguinte foram um alívio. Levantou-se e dirigiu-se às galinhas que debicavam a terra nas traseiras do moinho, para varrer da cabeça a mágoa que a invadia. Apanhou dois ovos, que engoliu com apetite e subiu com as ovelhas pela encosta. Chegou a um penedo de onde avistava o castelo e o grande arraial de tendas de pano com o estandarte do rei, formando o cerco. O sol ainda ia baixo e já reinava grande agitação entre os inúmeros soldados, armados de lanças e de bacinetes pontiagudos. Mais perto das muralhas, os carpinteiros trabalhavam na construção da bastida, uma enorme torre de madeira montada sobre carros para o assalto à praça. Carroças chegavam com víveres, homens e mulheres dançavam ao som de flautas e adufes enquanto assavam porco no espeto em grandes fogueiras improvisadas. Também no castelo todos os adarves das muralhas e dos cubelos, as próprias barbacãs do lado norte estavam repletas de castelhanos prontos a pelejar. Inês tentava avistar a figura de Martinho entre os homens que ali assomavam, mas acabou por desistir, dizendo-se a si própria: Esquece-o, mulher, que ele já te esqueceu.

      Desviou então o olhar do arraial, onde, como num transe, primava a pulsão de guerra e morte, e sentou-se numa pedra. Por momentos os seus pensamentos, concentraram-se na continuidade do mundo, observando as ovelhas que pastavam placidamente, o voo dos pássaros que se abrigavam nas árvores, a profundidade do céu. Agradar-lhe-ia ficar ali, saboreando a tranquilidade do ar que respirava, mas a imagem de Martinho e da Renegada juntos, que provavelmente naquele momento estariam a rir-se e a beijar-se numa enxerga do castelo, fê-la levantar-se, revoltada. Foi como se, com aquela imagem, tivesse engolido uma bebida amarga que, apesar de lhe ter ardido na garganta, a revigorasse.

      Sentia-se, no entanto, envergonhada pela onda de ciúme que nascia dentro dela. Perder Martinho deveria ser a menor das suas aflições. Perdê-lo não deveria doer tanto como a possibilidade de morrer, ou de a sua família ser obrigada a abandonar o moinho e tudo aquilo pelo que trabalharam. Esse futuro incerto, em caso de derrota face aos castelhanos, deveria ser a sua preocupação principal.

      Com um passo decidido, desceu então para o vale, conduzindo as ovelhas por uma ponte de pedras soltas que atravessava o ribeiro, nas bermas do qual estava acampada a comitiva do rei. Queria conhecer o rei em pessoa e oferecer-lhe os seus serviços na campanha contra os castelhanos.

      Quando chegou ao acampamento e pediu para ver o rei, um escudeiro prestou-se para a escoltar à tenda real. Era uma tenda feita de panos coloridos e aberta com um toldo que lhe fazia de portal. O rei estava sentado à mesa, bebendo de uma caneca de estanho e abriu-lhe um sorriso cordial.

      Depois de improvisar uma vénia desajeitada ao rei, Inês apanhou o denso cabelo escuro, afastando-o do rosto e fitou-o com os seus olhos pretos, de cabeça erguida. Era uma expressão que o rei nunca vira numa mulher do povo, no entanto, a partir daquele momento, soube que aquela era a sua face mais verdadeira. Ousada e corajosa. Sentiu que ela tinha alguma coisa a provar.

      Majestade – disse Inês, levando a mão ao peito – a vossa vontade é a minha. Dizei em que vos posso ajudar na luta contra os castelhanos.

      Rapariga, – disse o Rei, estendendo a mão para uma perna de borrego, um anel preto a brilhar-lhe no dedo mindinho. – diz-me primeiro, quem és?

      Sou aquilo em que me transformaram, Majestade. Uma guerreira vingativa. – respondeu Inês, semicerrando as pestanas espessas.

      Tenho um batalhão de cavaleiros que juraram servir-me – respondeu o rei com um riso trocista, enquanto mordia um pedaço de carne – Se queres ajudar-nos no combate, tens outras formas de o fazer! Cozinha para o nosso exército ou lava as nossas roupas no rio, como fazem as outras mulheres.

      A sua determinação desfocou-se quando ouviu a resposta do rei. O desdém que lia naquelas palavras fê-la emudecer de humilhação. Sabia que os homens que pelejavam passavam por treinos duros, tornando-se habilidosos com todo o tipo de armamento. Os homens que ali estavam já tinham certamente derramado sangue e visto a morte. Mas não seria uma mulher também capaz de matar e morrer por uma causa, de ser ela também uma guerreira?

      Afinal de contas, ela sentia o ardor da traição na ponta do seu estômago e o coração sangrante, tingindo quem quer que fosse que a avizinhasse de raiva profunda, tal como imaginava acontecesse a um qualquer soldado em batalha.

      No entanto, percebendo que o rei silenciaria qualquer contestação subsequente, Inês não verbalizou nenhum dos argumentos que tinha na ponta da língua. Atrás de si ouviu o som abafado de homens que tentavam disfarçar o riso. Quando se retirou, os guardas do rei cobriram-na de assobios indecorosos e gargalhadas. Sentiu os seus olhares despirem-na.

      Não queres ajudar-nos de uma forma mais divertida? perguntou um dos homens, agarrando-lhe uma ponta da saia e tentando apalpá-la.

      Inês soltou-se e afastou-se correndo rapidamente, demasiado furiosa para ter medo deles.

      No dia seguinte, resignada a contribuir para o sucesso da batalha com algo que a sua condição de mulher permitisse, Inês trouxe do moinho um cabaz de broas, para oferecer ao exército. No entanto, quando chegou ao acampamento, não encontrou lá ninguém. Os portugueses tinham lançado um primeiro ataque ao castelo de madrugada. A fumarada e a agitação concentrava-se junto às muralhas onde retumbavam estrondos, embates metálicos e relinches de cavalos. O mulherio assustado tinha-se refugiado na capela, rezando.

      Inês, sorrateira, preferiu esconder- se atrás de uma carroça carregada de barris, tentando assistir à batalha, na qual era impedida de participar. Agachada para que não a vissem, espreitava os movimentos das capas escuras dos soldados.

      (…) Continue para A Guerreira” – 3 de 3: “Estou bem, Majestade. Tenho cicatrizes mais antigas que me marcaram bem mais profundamente”

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