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Texto: Vera Nobre
Imagens: Geradas por IA
Grafismo e prompt: JM
Um longo renque de choupos que se erguiam para o céu em fileira, limitado de um dos lados pelo rio Minho, que corria ondulante e grandioso. Era ali o lugar preferido de Inês e Martinho, onde se encontravam depois do trabalho, e se deitavam de costas na erva fofa, inspirando o perfume da terra e ouvindo o gorgolejar do rio.

Os raios de sol que atravessavam a copa das árvores desenhavam-lhes formas no corpo. Ele sentava-se, virando as costas à namorada, com a túnica empoeirada da lavoura. Encostavam as ancas um ao outro e riam-se, roçando as nucas e entrelaçando a cabeleira da jovem, longa e escura, no pescoço dele. Depois, ele rodava o corpo e ela ajeitava a saia de burel para que ele se pudesse deitar a seu lado, afastando dela a cesta já vazia da venda das broas do dia. Com os olhares presos de desejo, beijavam-se sofregamente.
Percorriam a pele um do outro, enrodilhavam-se e agarravam-se no rastejar do fim da tarde, até o sol desaparecer por detrás da colina do castelo. Então, Inês enfiava no braço a cesta de palha e ambos compunham as roupas amarrotadas, salpicadas de ervas e húmidas de transpiração. Voltavam a Melgaço ao escurecer, galhofando pelo caminho, felizes.
Corria o ano de mil trezentos e oitenta e oito e eles viviam um estado de bonança e despreocupação.
Mas nesse outono toda a vida deles mudaria. As novas corriam já de boca em boca: o exército do rei Dom João planeava um assalto para breve ao castelo de Melgaço, que se erguia no topo da vila. Todas as praças da fronteira a norte de Portugal já se tinham entregado a Portugal à exceção deste castelo. Aí, do alto da sua torre de menagem, o alcaide-mor, Álvaro Pais de Souto Maior, levantava ainda a voz por Castela.
De que têm medo, gentes? – exclamavam alguns camponeses exaltados na taberna local. – Há anos que amanhamos estas terras e pagamos aos castelhanos em milho, uvas e mel e tudo o que nos exigem! Temos de mudar a nossa sina! Antes vassalos de El-Rei de Portugal!
Vamos dar uma lição aos vis “perros” castelhanos, expulsando-os daqui! – gritavam os mais afoitos, levantando as canecas de barro para um brinde.
Que me importa a mim quem comanda aqui? A mim importa-me só a minha vida – contrariavam outras vozes.
Os habitantes de Melgaço dividiam-se, uns em torno da fação portuguesa, outros por Castela. Dividir para reinar. As implicações são claras, as linhas serão traçadas.
A verdade é que nem todos estavam dispostos a apoiar a causa do rei português. Alguns tinham casas dentro das muralhas do castelo e a vida corria-lhes bem assim. Era o caso da família de Martinho. Eles viviam numa modesta casa de madeira, coberta de colmo, com dois catres a servir de camas. Partilhavam o mesmo teto com algumas cabras até à chegada da Primavera, a época em que subiam às brandas e aí se estabeleciam. Mas o Inverno aproximava-se e as noites frias apeteciam a fogueira no chão de terra batida da inverneira na vila. Aquele refúgio exíguo era o melhor dos lares e não o queriam largar.
Quem nos trama o destino, Martinho, meu amor? Os Castelhanos! Não podemos deixar que nos separem! Estou presa a ti! – suplicava Inês.
Quem nos quer separar são os portugueses! São eles quem nos quer mudar a vida que levamos aqui desde crianças. Estamos bem com o alcaide castelhano, não precisamos de mudanças. – respondia Martinho.
Os pais de Inês também não viam com bons olhos a ideia de alterações nas rotinas do trabalho no moinho, onde viviam. Inês ajudava os pais na peneira da farinha, depois na sova da massa, onde acrescentavam sempre um pouco de mel, que era do agrado do alcaide castelhano que lhes comprava as broas. Rezavam pela vitória dos portugueses, mas temiam as represálias dos castelhanos no caso em que estes vencessem a batalha.
Sabendo Inês que dali a pouco os portugueses montariam o cerco ao castelo, correu por uma última vez ao interior das muralhas para suplicar ao namorado que não a abandonasse, e se juntasse aos que ficavam fora da fortaleza. A mãe arreliou-se ao vê-la largar o fabrico das broas do dia, mas ela não a ouviu, ansiosa por ir ao encontro de Martinho. Estava nervosa e com pressa. Era preciso agir rapidamente. Do moinho, onde morava, até ao castelo, levava ainda um quarto de légua de caminho e receava que os portões se fechassem antes que ela lá chegasse.
Quando entrou no recinto do castelo, reinava já grande azáfama de preparativos para enfrentar o cerco que todos sabiam próximo. Homens e mulheres ofegantes acarretavam mantimentos e pedras, sob ordens do alcaide-mor. O animais agitavam-se, presos em espaços exíguos. A cacofonia de cacarejos, balidos e zurros era ensurdecedora.
Inês atravessou discretamente as ruelas estreitas da fortaleza, com o carapuço do capote cobrindo os seus cabelos pretos, tentando passar despercebida por aqueles que pactuavam com os castelhanos, não fossem eles abordá-la.
Avistou Martinho, distinguindo-o pela sua estatura alta e os cabelos encaracolados que lhe tocavam o colarinho da túnica de linho verde. Segurava pela canga um carro de bois, carregado de palhas em medas. Dava-lhe as costas e estava ali parado, em conversa animada com uma mulher vistosa, de cabeleira riçada e ruiva.
Inês reconheceu-a, era uma portuguesa de quem todos falavam mal, chamavam-na a Renegada, a rameira dos castelhanos.

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